
Não posso continuar tentando ser como Che, nem herdar a pureza de Camilo, nem ter a valentia de Maceo, o arrojo de Agramonte, a coragem de Mariana Grajales, o espírito errante e criativo de Martí, o silêncio estoico de Celia Sánchez; minha proeza é singela: sobreviver nesta ilha, evitar o suicídio, suportar a culpa de minhas dívidas, o acaso de estar viva, e desligar-me definitivamente desses persistentes nomes de guerra e de paz.
Não quero ser a mártir dos mártires, de suas epopeias e de sua grande épica. Diante das estátuas dos heróis, pensei que minha morte deveria ser simples, minuciosa, cuidada, discreta.
Meus verdadeiros heróis são meus pais, vítimas de uma sobrevivência doméstica, calada, dilatada, dolorosa. Desintegrados numa seita de adorações e desencantos, eles perderam a razão.
Derrubados como o muro, ao olhar para o outro lado, o único patrimônio que lhes restava era o mar; a baía escura e estrelada ou o Caribe luminoso de todos os dias. E nada disso pôde salvá-los. Deixaram de lado seus projetos pessoais para integrar o projeto coletivo.
Os líderes em primeiro plano e meus pais fora de foco, em profundidade de campo, longe, muito longe do protagonista. Eles foram figurantes devotados, duplos da grande obra, roteiro divino e encenação complicada.
Houve dias em que me senti órfã ou, para dizer de um modo mais conciliador, Filha da Pátria. Via meus pais durante breves intervalos. Não era algo particular, vários amigos se encontravam nessa mesma situação.
{...}
Meus pais não fi zeram a guerra para a vitória porque eram muito jovens, mas tampouco chegaram a tempo para as liberdades desse sonho ideal. Frustrados por não terem feito a Revolução, eles a sustentavam. Carregavam a sociedade como quem suporta uma viga sobre o corpo; todavia, quase sempre felizes por fazerem parte, por serem uma das vozes do grande coro, eles também resistiram. Isolaram-se bem no centro dessa geração capturada, sem encontrar saída.
Mas já chega, caros ouvintes, agora vamos ouvir um pouco de música enquanto fazemos uma pausa antes de tudo que hoje eu quero confessar."
{Trecho Extraído do Livro: Nunca Fui Primeira Dama - Wendy Guerra}
Sinopse: Com Nadia Guerra, seu alter ego ficcional, a romancista e poeta Wendy Guerra escreve a história proibida das mulheres de Cuba. Publicado em oito países, cruza ficção e realidade no relato de uma mulher obcecada pela ideia de encontrar a mãe, que a abandonou aos dez anos de idade. Imersão num bravo mundo feminino, a busca por Albis Torres é também uma viagem a seu próprio passado e às salas escuras do regime cubano. Ao trazer a mãe de volta a Havana, resgatada em Moscou com uma doença que lhe tirou a memória, Nadia Guerra descobre em uma caixa de objetos pessoais os rascunhos de um romance que Albis escrevia sobre Celia Sánchez, secretária pessoal de Fidel Castro, heroína da revolução cubana. Um livro que a mãe jamais conseguiu publicar, fruto de uma amizade que a forçara a abandonar a um só tempo sua filha e seu país. Com "Nunca Fui Primeira-Dama", Wendy Guerra reconstrói a vida da mãe e de Célia, síntese de uma revolução e seus efeitos sobre o destino e os sentimentos mais profundos do ser humano. No papel de sua própria personagem, a autora nos faz entrar em um relato de sombras, tanto das mais íntimas quanto das revoluções.
Ao materializar o romance censurado, Wendy Guerra coloca-se no papel de sua personagem, agora na vida real. E corajosamente enfrenta os limites do regime de Cuba, onde ainda mora e sua obra permanece sem publicação.
Opinião: Confesso não ser o meu estilo de leitura, mas o livro nos mostra bem como foi a Cuba no início da Revolução. Nos revela também o preço pago por ela. Ideias vigiadas, pensamentos que não podem ser revelados, preconceitos expostos. Tudo isso mostrado do ponto de vista da autora, quando resolve enfim, encarar seu passado e descobrir quem realmente foi sua mãe.
Editora: Benvirá
Assunto: Literatura Estrangeira-Romance
ISBN: 9788502095328
Idioma: Português
Tipo de Capa: BROCHURA
Edição: 1
Número de Páginas: 255
Início: 28/06/2010
Término: 29/06/2010